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Observando Marte no século XIX: a loucura dos "canais" |
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século XX |
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É no século XIX que um grande equívoco irá produzir graves problemas à Astronomia. Uma tradução errada de uma palavra fez com "canais artificiais" fossem "vistos" na superfície de Marte. O mais interessante é que alguns astrônomos importantes da época passaram a defender com veemência esta idéia. A imprensa, e o público, estavam ansiosos por notícias deste tipo. A Astronomia passa a fazer parte dos noticiarios e os astrônomos se mostram ao grande público. É época de tentar ser famoso fora da ciência, de qualquer maneira, prática que, infelizmente, voltou a ser acentuada na última década.
1800: Johann Hieronymus Schroeter
Este entusiasmado astrônomo amador fez alguns desenhos de Marte. Schroeter mantinha correspondencia regular com Herschel e possuia telescópios feitos com componentes fabricadas por Herschel.
1809: Honoré Flaugergues
Honoré Flaugergues, um astrônomo amador francês, trabalhando em seu observatório particular em Viviers no sudeste da França, notou a presença de "nuvens amarelas" sobre a superfície de Marte. Muito mais tarde constatou-se que elas eram nuvens de poeira.
Flaugergues mais tarde descobriu o Grande Cometa de 1811.
1813: Honore Flaugergues
Honore Flaugergues notou o rápido derretimento das calotas polares de Marte.
Ele verificou que as características destas regiões eram variáveis e que a calota de gelo polar derretia e diminuia significantemente na primavera de Marte.
Flaugergues supôs que a calota consistia de camadas espessas de gelo e neve.
Ele também concluiu que o rápido derretimento das calotas implicava no fato de que Marte é mais quente do que a Terra.
1840: Wilhelm Beer e Johann von Maedler
Wilhelm Beer (1797-1850) e Johann von Maedler (1794-1874) observam e fazem desenhos de Marte no observatório particular de Beer, próximo a Berlin. Com base nestas observações eles geram um mapa global de Marte.
Observando Marte em intervalos de 759, 1604 e 2234 dias, eles fizeram 3 determinações do período de rotação do planeta. O valor médio obtido é de 24 horas, 37 minutos e 22,6 segundos, o que é surpreendentemente próximo ao valor atualmente aceito de 24 horas, 37 minutos e 22,7 segundos.
Anteriormente, em 1836, Beer e Maedler também tinham produzido o mais completo mapa da Lua de sua época, o Mappa Selenographica, que permaneceu insuperável até 1878, quando então surgiu um mapa mais detalhado.
1854: William Whewell
William Whewell, membro do Trinity College da Cambridge University, e filósofo da ciência teorizou sobre Marte. Ele supôs que Marte tinha mares verdes e terra vermelha, e queria saber se havia vida extraterrestre. Whewell especulou que Marte possivelmente tinha formas de vida.
Anteriormente, em 1830, Whewell introduziu o termo scientist (cientista) na lingua inglesa. Até esta época os pesquisadores eram chamados de filósofos naturais.
1858: Pietro Angelo Secchi
Pietro Angelo Secchi (1818-1878), frade jesuíta diretor do Observatório do Colégio de Roma, desenhou um mapa de Marte e chamou Syrtis Major de "Canal Atlântico"
Secchi, a despeito de sua proximidade com o Vaticano, acreditava na pluralidade dos mundos. Em 1856, ele escreveu, em "Descrizione del nuovo osservatorio del collegio romano":
| "É com um sentimento agradável que o homem imagina estes mundo sem número, onde cada estrela é um sol que, como instrumento da generosidade divina, distribui vida e bondade aos outros inumeráveis seres, abençoados pela mão do Onipresente." |
Ele reconheceu que estes mundos podem não ser acessíveis aos seus telescópios mas, por analogia com a Terra e o Sistema Solar, ele estava convencido de que o Universo é um organismo maravilhoso preenchido com vida.
1859: Canal de Suez
Começa o trabalho da construção do Canal de Suez, a maravilha de engenharia daquele tempo. Os canais movimentavam o comércio em várias partes do mundo, mas o de Suez era o maior de todos, considerado igual às pirâmides. A importância da construção destes canais no século XIX sem dúvida influenciou o interesse equivocado mais tarde nos "canais" de Marte.
1860: Emmanuel Liais
Emmanuel Liais (imagem ao lado), que foi diretor do Observatório Nacional no período de 1870-1881, propos vegetação em Marte. Ele sugeriu que as regiões escuras não são mares, como era comumente imaginado pelos outros observadores tais como Secchi, mas, em vez disso, seriam áreas de vegetação.
1862: Joseph Norman Lockyer
Joseph Norman Lockyer (1836-1920), do Royal College of Science em Londres, que mais tarde seria conhecido como Imperial College, faz desenhos de Marte.
Ele concorda com Secchi que as áreas "verdes" de Marte são regiões oceânicas.
Lockyer ficou mais conhecido pela sua descoberta do elemento químico hélio, que ele identificou a partir de uma linha de emissão no espectro solar em 1870.
1862: Frederik Kaiser
Frederik Kaiser, na Holanda, calculou que o período rotacional de Marte era de 24 horas, 37 minutos e 22,62 segundos. O valor hoje aceito é 24 horas, 37 minutos e 22,663 ± 0,002 segundos.
1867: Richard Anthony Proctor
Richard Anthony Proctor publicou um mapa de Marte (imagem ao lado) com continentes e oceanos.
A sua escolha do meridiano zero de Marte ainda é a covenção correntemente aceita.
1867: Pierre Jules Janssen e William Huggins
Pierre Jules Janssen (1824-1907) e William Huggins (1824-1910) fizeram a primeira tentativa (sem sucesso) de detectar vapor d'água e oxigênio espectroscopicamente em Marte.
1877: Giovanni Virginio Schiaparelli
Giovanni Virginio Schiaparelli (1835-1910) desenvolveu uma nomenclatura para mapear os pontos mais importantes de Marte. Os nomes foram tirados da mitologia, história e de vários termos então usados como sinônomos da palavra "inferno".
1877: Giovanni Schiaparelli
Em 1877 o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli usa o termo "canali" para descrever os riscos que ele observou sobre a superfície de Marte.
Isto foi erradamente traduzido para o inglês como sendo a palavra "canals", palavra inglesa que significa "canais" no sentido de uma obra construída artificialmente.
A partir deste fato muitas pessoas, inclusive astrônomos, passaram a imaginar que os "canais" vistos em Marte formavam um sistema de canais artificiais e, portanto, haviam sido construidos por seres inteligente. Conseqüentemente, Marte era habitado por seres inteligentes.
Na verdade, a observação de Schiaparelli deveria ter sido traduzida corretamente pela palavra inglesa "channels", que significa "canais naturais". Mas, com o excitamento existente com a construção do Canal de Suez, o termo italiano "canali" foi traduzido erradamente como "canals" e assim começou uma enorme confusão na história da exploração de Marte.
As imagens abaixo mostram mapas da superfície de Marte feitos por Schiaparelli em 1877.
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1877: Asaph Hall
Asaph Hall descobre os satélites de Marte.
Ele os chama Fobos (medo) e Deimos (pavor), em homenagem aos cavalos do deus grego da guerra, Ares (contraparte ao deus romano da guerra Marte).
1879: Giovanni Schiaparelli
Schiaparelli observa "canali" duplos, para ele um exemplo de "geminação".
1880: Percy Gregg
Percy Gregg, um autor britanico, publica o livro "Across the Zodiac", uma novela em dois volumes sobre uma viagem a Marte.
Para ele, Marte tinha céus de cor verde pálido e folhagem de cor alaranjada.
24 de abril, 27 de abril e 2 de maio de 1882
Os "canais" no planeta Marte são discutidos na imprensa. O jornal "New York Times" publica várias reportagens nos dias acima citados sobre o assunto. No dia 2 de maio ele publica:
"Richard Proctor waffles on the Canals of Mars" (Richard Proctor fala vagamente sobre os canais de Marte).
1891: Clara Gouguet Guzman
Uma rica viúva francesa, Clara Gouguet Guzman, ofereceu um premio de 100000 francos para quem conseguisse se comunicar com extraterrestres. O premio seria concedido "à pessoa de qualquer nação que encontrar os meios dentro dos próximos 10 anos de se comunicar com uma estrela (planeta ou qualquer outra coisa) e de receber uma resposta".
O premio foi administrado pela Academia Francesa de Ciências e recebeu o nome de "Premio Pierre Guzman", em homenagem ao filho de Mme. Guzman.
Madame Guzman excluiu Marte do concurso, considerando-o "fácil demais" para contactar!
1894: Percival Lowell
Percival Lowell (1855-1916) começa a observar Marte no seu observatório em Flagstaff, Arizona, Estados Unidos.
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1894: Edward Emerson Barnard
Edward Emerson Barnard (1857-1923) informa não ter encontrado qualquer evidência de canais artificiais em Marte.
1895: Percival Lowell
Percival Lowell publica seu livro "Mars".
1895: Percival Lowell
Lowell elaborou uma série de conclusões sobre os canais de Marte, especulando que eles eram um complexo sistema de irrigação construido pelos marcianos, que aproveitavam o gelo derretido das calotas polares de Marte.
1895: New York Herald
O jornal New York Herald afirma que foram observadas certas características na superfície de Marte que formam a palavra "Deus", escrita em hebráico.
1894-1896: a "médium" Helene Smith
Helene Smith, uma "médium" de Geneva, Suiça, cujo nome real era Catherine Elise Muller, alega ter tido visões de Marte quando estava sob hipnose induzida pelo eminente psicólogo Theodore Flournoy.
Smith imaginou ela mesma em pé em Marte e relatou o seu encontro com marcianos. Ela conseguiu até mesmo falar "marciano" que, segundo ela, era bem parecido com francês!!
Mais tarde Flournoy descreveu esta experiência no livro "From India to the Planet Mars", editado pela Harper and Bros, 1900.
1895: a "médium" Mrs. Smead
Mrs. Smead, uma "medium" norte-americana, diz que pode se comunicar com sua filha e cunhado, ambos mortos, que estão em Marte.
Smead descreveu os canais de Marte e os marcianos como sendo muito semelhantes aos humanos.
Smead foi examinada pelo psicólogo Prof. J. Hyslop, que concluiu que ela tinha uma desordem de personalidades múltiplas.
(J. Hyslop, "Psychical Research and the Ressurection", Small/Maynard, 1908. Também publicado como editorial no jornal Independent, com o título "Communicating with Mars", páginas 1042-1043, 1909.
1897: H. G. Wells
O livro, "A Guerra dos Mundos", (The War of the Worlds), de Herbert G. Wells (1866-1946), foi serializado no "Pearson's Magazine". Ele também foi impresso nos Estados Unidos, no "The Cosmopolitan".
1898: "A Guerra dos Mundos"
O livro "A Guerra dos Mundos" é publicado com capa dura.
1899: Carl Jung
"Miss S. W.", paciente de 15 anos de idade de Carl Jung, "vai" a Marte em transe. Ela vê canais e marcianos em máquinas voadoras.
Jung deduz que S. W. estava sofrendo de uma personalidade dissociada.
(Jung, C., "Zur Psychologie und Pathologie sogennter Occulter Phanomene", Muntze, 1902)
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