Enquanto a ciência no século XVII foi obstruida pela Inquisição, os cientistas do século XVIII desfrutaram de um grau muito maior de liberdade.
Embora o primeiro telescópio refrator tenha sido, provavelmente, construido em 1609 por Galileu, que imediatamente o usou para propósitos astronômicos, este instrumento não produziu um grande impacto na Astronomia até os anos de 1700.
Os telescópios dos anos de 1600 eram muito primitivos, mas aqueles construidos no século XVIII eram muito maiores e bem mais poderosos.
Em 1672 Isaac Newton desenhou o seu telescópio refletor e o apresentou à Royal Society of London mas, como já vimos, os metais usados na fabricação dos espelhos naquela época não podiam ser polidos adequadamente e, conseqüentemente, estes instrumentos não permitiam um estudo preciso dos planetas.
Somente em 1722 é que John Hadley produziu um telescópio refletor que funcionava bem.
Com os progressos na qualidade e disponibilidade dos telescópios, os cientista dos anos de 1700 deram início à pesquisas sobre os vários planetas, em particular Marte.
Estes telescópios permitiram a confirmação da descoberta das calotas de gelo polares marcianas que haviam sido notadas por Cassini e Huygens nó século XVII, além de vários outros aspectos significantes do terreno marciano.
Centenas de anos mais tarde, várias conclusões obtidas com as observações dos anos de 1700 foram corroborados pelas sondas espaciais que circularam em torno de Marte.
1704: Giancomo Filippo Maraldi
Giancomo Maraldi, sobrinho de Cassini, observou "manchas brancas" nos pólos de Marte. Ele não as chamou de calotas de gelo.
Como o pólo sul de Marte está inclinado na direção da Terra ele é mais fácil de observar. Maraldi descobriu que a calota do sul não estava centrada no pólo de rotação.
Maraldi fez suas observações com o Telescópio Campani no Observatório de Paris.
1719: Giancomo Miraldi
Giancomo Miraldi sugeriu que as "manchas brancas" nos pólos de Marte poderiam ser interpretadas como calotas de gelo.
Maraldi também notou que a calota do sul mudava de tamanho e desaparecia em agosto e setembro, somente reaparecendo mais tarde.
1719: muito próximo
Marte está em oposição, e mais próximo à Terra do que ele estará nos próximos 284 anos ou seja, até o ano 2003.
O brilho de Marte no céu é interpretado como uma profecia má e causa preocupação e pânico.
1727: Jonathan Swift
O livro As viagens de Gulliver de Jonathan Swift (1667-1745) especula que existem dois satélites marcianos.
Um trecho do livro diz:
| "Eles, do mesmo modo, descobriram duas estrelas menores, ou Satélites, que giram em torno de Marte, de quem a mais interna está distante do Centro do planeta Primário exatamente tres de seus diâmetros, e a mais externa cinco; a primeira gira no Espaço de dez Horas e a última em Vinte e uma e meia". |
Certamente a citação dos dois satélites de Marte, ainda desconhecidos naquela época, por Jonathan Swift foi apenas mera coincidência.
1754: Abraham Kastner
Abraham Kastner, poeta e anti-pluralista, publica um poema sobre o seu amigo pluralista Christob Mylius, que havia morrido em 1752. No poema, a alma de Mylius viaja através do Sistema Solar. Em Marte, Mylius encontra "as almas eternas" dos marcianos.
1777-1783: William Herschel
Frederick Wilhelm Herschel (1738-1822), foi músico em sua terra natal, a Alemanha, e mais tarde ao viver na Inglaterra tornou-se astrônomo. Após ter-se naturalizado ingles ele passaria a ser conhecido pelo nome de William Herschel e se tornaria o "British Astronomer Royal" (Astrônomo Real Britânico).
Herschel foi um importante inovador no mundo dos telescópios. Ele verificou que os telescópios com tubos muito compridos eram difíceis de lidar e que os telescópios refletores da época eram proibitivamente caros. Por este motivo Herschel decidiu criar seus próprios instrumentos. Após várias tentativas, ele conseguiu construir um telescópio refletor que funcionava muito bem.
A dedicação de Herschel a este tipo de pesquisa permitiu que ele fabricasse alguns dos mais avançados telescópios da época, com comprimentos focais de 2,1 metros, 2,7 metros, e 6,1 metros.
Herschel fez vários estudos sobre Marte, entre 1777 e 1783, usando os telescópios que ele próprio construiu.
Em 1781 Herschel descobriu o planeta Urano e isto levou o rei George III da Inglaterra a conceder a ele uma pensão por toda a vida para estudar astronomia.
Herschel acreditava que todos os planetas eram habitados e até mesmo que existiam seres inteligentes vivendo em uma área fria sob a superfície do Sol.
26 e 27 de outubro de 1783: William Herschel
Nestas datas Herschel observou duas estrelas fracas passarem, aparentemente, muito próximas a Marte, a uma distância de alguns segundos de arco. Ele notou que não houve qualquer efeito no brilho delas, ou seja, a luz proveniente destas estrelas não foi afetada. A partir disto Herschel corretamente supos que Marte tinha uma atmosfera tênue porque ele não pode ver qualquer efeito sobre a quase ocultação destas estrelas fracas.
1784: William Herschel
William Herschel publica na conceituada revista científica inglesa "The Philosophical Transactions" um artigo entitulado: "On the remarkable appearances at the polar regions on the planet Mars, the inclination of its axis, the position of its poles, and its spheroidal figure: with a few hints relating to its real diameter and atmosphere" (Sôbre os aspectos notáveis nas regiões polares do planeta Marte, a inclinação de seu eixo, a posição de seus pólos, e sua forma esferoidal: com algumas sugestões a respeito de seu diâmetro real e atmosfera).
Neste artigo ele declara que a inclinação axial de Marte é de 30 graus. O valor correto da inclinação axial de Marte em relação ao seu plano orbital é de 25,19 graus.
Herschel também, erroneamente, supos que as áreas escuras em Marte eram oceanos, e as regiões mais claras eram terras.
Ele notou as variações sazonais das calotas polares e sugeriu que elas fossem neve e gelo.
Herschel comparou a notável similaridade entre Marte e a Terra:
| "A analogia entre Marte e a Terra é, talvez, de longe a maior de todas em todo o Sistema Solar. O movimento diurno é, aproximadamente, o mesmo; a obliquidade de suas respectivas eclípticas, das quais as estações dependem, não muito diferente; de todos os planetas superiores a distância de Marte ao Sol é de longe a mais proximamente parecida com aquela da Terra: nem parecerá o ano marciano muito diferente daquele que nós desfrutamos". |
Ele especulou que os habitantes marcianos "provavelmente desfrutam de uma situação similar à nossa própria".
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