Supercordas, dimensões ocultas e a busca da teoria definitiva
Brian Greene
Nome do livro original: "The Elegant Universe: Superstrings, Hidden Dimensions, and the Quest for the Ultimate Theory"
Autor: Brian Greene
Edição em português: Companhia Das Letras; 462 páginas
Dados sobre o autor
O professor Brian Greene fez seu curso de graduação em física na Harvard University e obteve seu Ph.D., em 1987, na University of Oxford. Atualmente é pesquisador do Departamento de Física da Columbia University, em New York. Sua área de pesquisa é a Teoria de Cordas, Supercordas e Gravitação Quântica. O professor Greene possui uma destacada reputação no meio científico pelos importantes trabalhos científicos que tem desenvolvido.
"O Universo Elegante"
Se já não é muito fácil entender a teoria de Einstein que descreve, com 4 dimensões, o espaço-tempo que forma o nosso Universo, imagine ser apresentado a novas teorias físicas que descrevem o espaço-tempo usando 10 ou 11 dimensões!! Se esta novas idéias fossem somente 2,5 vezes mais complicadas do que a teoria com 4 dimensões já teríamos um grande desafio. No entanto, o nível de abstração necessário para entender estas novas idéias torna esta tarefa muito mais difícil. Bem, melhor então nem tentar, não acha? Ou será que existe alguma chance de conhecermos um pouquinho sobre estas novas teorias que tentam descrever o interior da matéria, as estruturas mais fundamentais que formam o nosso Universo, sem ter que obter antes um grau de doutor em Física? Isto é possível ou os segredos do Universo só podem ser conhecidos por alguns poucos especialistas? É possível sim, e isto ocorre graças a pesquisadores que dedicam parte do seu tempo para escrever livros em que tentam eliminar a pesada matemática envolvida no assunto e apresentar, de forma concisa e simples, as principais idéias que estão sendo elaboradas nas fronteiras das pesquisas científicas.
O pesquisador Brian Greene é o autor de um destes livros.
Em "O Universo Elegante", este jovem físico teórico, que atualmente trabalha na Columbia University, em New York, nos apresenta, em mais de 400 páginas, o que há de mais moderno em termos de teorias sobre os constituintes mais básicos do Universo, teorias que, mais uma vez, colocaram a Física de pernas para o ar.
Este é um livro para quem tem paixão pela ciência. O leitor pode ser facilmente enganado porque, ao folhear o livro não irá encontrará equações matemáticas que, em geral, acabam assustando os menos inclinados para o cálculo. No entanto, não se iluda. Este não é um livro fácil de ler. Para realmente aproveitar o conteúdo de "O Universo Elegante" você deverá ter alguma familiaridade com duas áreas, empolgantes mas difíceis, da física moderna: a Teoria da Gravitação de Einstein e a Mecânica Quântica.
A Parte I do livro (capítulo 1) é uma visão geral do que está para vir. Greene apresenta, de modo conciso, as forças fundamentais que atuam no interior da matéria, nos mostra a idéia básica que sustenta a teoria de cordas e revela os conflitos fundamentais existentes entre a teoria da gravitação de Einstein e a mecânica quântica.
A Parte II é formada por 4 capítulos dos quais dois são sobre as teorias relativísticas de Einstein, um sobre mecânica quântica e o último apresenta um pouco de teoria quântica de campos e as contradições físicas que exigem a presença de uma nova teoria capaz de descrever os estágios mais elementares da matéria. Os capítulos 2 e 3, onde Greene apresenta os conceitos já estabelecidos da Teoria da da Relatividade e da Teoria da Gravitação de Einstein, também conhecida como Relatividade Geral, não são uma leitura amena para um iniciante.
O texto é denso muitas informações por parágrafo e, para aqueles que estão realizando uma primeira incursão neste campo teórico da Física, é necessário uma boa dose de força de vontade para continuar a leitura. No entanto, para aqueles que já conhecem um pouco da teoria de Einstein, a leitura se torna amena e interessante uma vez que Greene apresenta várias analogias originais que ajudam a entender alguns pontos essenciais desta teoria. Aliás, é bom louvar o cuidado que Greene tem ao propor analogias em suas discussões, sempre alertando para os seus pontos fracos, como por exemplo ao discutir as analogias do "Big Bang" na página 102. Isto é muito importante e quase nunca feito por autores de livros de divulgação científica o que, muitas vezes, induz o leitor menos avisado a criar imagens completamente erradas de importantes eventos físicos. Só discordo da historinha do "velho pão-duro" (página 110): por que não modernizá-la e substituir o cansado velho por um ambicioso jovem "yuppie" da bolsa de valores de Wall Street ou um famigerado capitalista do FMI ?
Estes comentários não devem ser entendidas como uma crítica ruim ao livro. Estes dois capítulos têm 65 páginas ao todo. Como não ser denso ao descrever, neste pequeno espaço, duas teorias que revolucionaram a Física e sobre as quais livros exclusivos tem sido editados (alguns sem terem mais sucesso que o livro do Greene)?
A apresentação da mecânica quântica se dá nos capítulos seguintes, capítulos 4 e 5, e possui as mesmas características dos capítulos anteriores. Também é densa e para o leitor curioso muitas perguntas ficam no ar.
A Parte III (capítulos 6 a 9) é sobre o assunto da capa: a Teoria de Cordas. Aqui o autor revela a sua paixão e o texto flui, quase sob um ponto de vista histórico, mostrando a riqueza e o desafio das novas idéias. Muito interessante é o item "Uma Breve História da Teoria das Cordas" (página 157), que nos mostra a importância de olhar para o passado, para teorias que estão adormecidas. Ele pode ser entendido como uma ligeira crítica à super-especialização que vemos hoje na formação de físicos e astrônomos.
A Parte IV (capítulos 10 a 14) é a que apresenta a física mais difícil. Seu tema é a geometria quântica, teoria M, buracos negros e cosmologia. Está muito bem escrita mas se você não entendeu a Parte III do livro, certamente terá grandes dificuldades. Mesmo assim leia esta parte toda pois será surpreendente saber o tipo de raciocínio desenvolvido pelos físicos teóricos atualmente e como isto é aplicado ao nosso Universo.
Um ponto criticável no livro do Greene é o fato de que o texto se ressente da escassez de figuras. Elas são poucas e, em geral, o texto a elas associado não ajuda muito o leitor. Elas, praticamente, repetem aquilo que já foi mencionado anteriormente. Há até mesmo uma certa monotonia nas imagens apresentadas no livro. Um pouco mais de ilustrações detalhadas certamente ajudaria muito o leitor a compreender este conjunto de teorias.
Olhando o livro como um todo
Um excelente livro, cuja escolha para tradução em português só pode ser louvada por todos aqueles que gostam de ciência (afinal o povo brasileiro fala a lingua portuguesa e a famigerada globalização ainda não proibiu que o nosso povo utilize sua própria lingua). O livro está muito bem editado pela Companhia das Letras, o que não é novidade uma vez que está editora tem se destacado no cenário editorial brasileiro pela qualidade intelectual de várias de suas publicações. A tradução é bem feita, embora Einstein tenha sugerido o nome de teoria da "invariância" para a sua teoria (e não "invariança" como está na página 69). Em alguns momentos peca-se em tentar traduzir termos que a comunidade científica aceita na sua forma original. Por exemplo, orbifold é traduzido como orbidobra (página 284), termo que não é usado pelos pesquisadores desta área. Um pouco mais arriscado é traduzir mirror manifold por conjunto espelhado (página 285). Manifold significa "variedade", um conceito muito bem definido pelos matemáticos e que possui um significado completamente diferente de "conjunto", um outro conceito matemático bem conhecido.
Uma questão um pouco mais séria é o uso do termo "grau" quando se refere à escala absoluta de temperatura, a escala Kelvin. Em vários locais do livro, por exemplo nas páginas 198, 200 e 380, foi adicionada a palavra "grau" quando há referência a medidas na escala Kelvin, termo que, corretamente, não é usado no original de Brian Greene. No entanto, tenha clareza de que estes pequenos pontos de forma alguma empalidecem o trabalho cuidadoso realizado pelo tradutor, que é bem feito e não traz ao leitor qualquer risco na utilização da edição brasileira.
Vale a pena comprar este livro?
Com certeza, sim. Este é um livro que deve ser lido por qualquer pessoa que queira sentir o gosto estranho que existe na fronteira da pesquisa em Física. Mas não se empolgue demais. Não pense que, ao terminar esta leitura, você sabe alguma coisa sobre Teoria de Cordas e Teoria M.
Tenha o bom senso de permanecer com os pés bem firmes sobre a Terra ao terminar a leitura de "O Universo Elegante". Faça um teste com você mesmo: ao completar cada capítulo, feche o livro e tente fazer um discurso de, pelo menos, dez minutos sobre o assunto tratado nele. A dificuldade irá explodir à sua frente. Greene escreve de uma maneira que pode dar ao leitor não especialista uma ilusão de entendimento. A honestidade científica de Greene fez com que ele mantivesse um razoável rigor científico ao longo de todo o texto.
Um ponto principal deste livro é mostrar que a Física não é uma ciência completamente fechada. Ela está aberta para novas idéias, que estão surgindo e substituindo o que, na década anterior, era considerado como o mais correto. Ao contrário de muitos autores que eliminam de seus textos a contradição, o debate, a discordância, Greene mostra que idéias novas não são aceitas de imediato. Cientistas "pesos-pesado", tais como Sheldon Glashow (prêmio Nobel - 1979), Paul Ginsparg, Richard Feynman (premio Nobel - 1965) e Howard Georgi, criticam duramente a teoria de cordas apresentando sólidos argumentos contra ela, e mantendo-se a favor da descrição puntiforme do Modelo Padrão das partículas elementares. Lembre-se que ao terminar este livro você continua a ser um amador sobre o assunto, o que não é nenhum desmérito pois a Teoria de Cordas e a Teoria M são assuntos muito complicados. E ter opinião sobre estes assuntos, tomar partido nas polêmicas estabelecidas por estas teorias, é o mesmo que intervir em uma briga, não de "cachorros grandes", mas sim de Tiranossaurus Rex.
Fique atento a este empolgante assunto. Leia outros livros, ou artigos de divulgação sobre partículas elementares, teoria de campos, gravitação, mecânica quântica. Não tenha receio dos nomes. As referências e sugestões de leitura citadas por Greene (página 461) são muito bem escolhidas. Aqueles que têm facilidade em ler em inglês devem ler todos eles pois são muito bons. Felizmente vários livros escritos por Davies, Feynman, Gamow, Guth, Hawking, Kaku, Pais, Penrose e Weinberg, e citados por Greene, já foram publicados em português, o que é muito bom pois dá a todos nós a oportunidade de conhecer as opiniões de algumas das mentes mais brilhantes da Física nos últimos tempos. Pense, converse, aproveite todas as oportunidades para aprender um pouco mais sobre estes assuntos. Mais tarde, leia de novo o livro do Greene. E cada vez que você voltar a manusear este livro se surpreenderá com as "novidades" que ele tem para lhe contar.
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